O secretário licenciado de Saúde, Rubem Bottas, de São José do Rio Preto (SP), obteve habeas corpus para permanecer em silêncio e não ser preso durante o depoimento marcado para a manhã desta quinta-feira (21), na Comissão Especial de Inquérito (CEI), da Câmara dos Vereadores, que investiga o convênio de quase R$ 12 milhões da Prefeitura com hospital de Casa Branca (SP).
O direito de Bottas de permanecer em silêncio para não se autoincriminar foi garantido pela juíza Luciana Conti Puia, da Vara Regional de Garantias de Rio Preto, em salvo-conduto julgado na quarta (20).
Ela determinou ainda que o secretário licenciado não seja preso em flagrante por desobediência e nem por falso testemunho, durante o depoimento à CEI.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/R/6/8zctTxS56AcagdptBOlg/bottas-cei.png)
Rubem Bottas, secretário licenciado de Saúde de Rio Preto (SP), acompanhado de advogado, durante sessão da CEI da Câmara de Vereadores para colher seu depoimento, nesta quinta (21): direito ao silêncio assegurado — Foto: Marina Lacerda/TV TEM
A comissão investiga suspeitas de irregularidades no convênio de R$ 11,9 milhões firmado em abril entre Prefeitura e a Santa Casa do município de Casa Branca para mutirão de exames. Após repercussão negativa que resultou na instalação da CEI, o prefeito Fábio Cândido (PL) suspendeu o convênio, alegando "cautela administrativa" e "segurança jurídica".
Os vereadores que compõem a CEI marcaram o depoimento para saber do secretário licenciado as razões que levaram a administração municipal a firmar o convênio com o hospital de Casa Branca, cidade de cerca de 28 mil habitantes na região de Campinas.
O convênio previa o pagamento de R$ 11,9 milhões pela prefeitura para aquela Santa Casa para a realização de realização de aproximadamente 63 mil exames de imagem num prazo de 90 dias.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/g/z/sYBdpGSzyvxBk6yXBbQg/bottas-cei2.png)
Rubem Bottas, secretário licenciado de Saúde de Rio Preto (SP), acompanhado de advogados, durante sessão da CEI da Câmara de Vereadores para colher seu depoimento, nesta quinta (21): direito ao silêncio assegurado — Foto: Marina Lacerda/TV TEM
Ao ser ouvido pela CEI, no dia 15, o presidente do Conselho Municipal de Saúde, Fernando Araújo, afirmou que o órgão deliberativo foi “induzido a erro” pela administração municipal ao autorizar a celebração do convênio, em reunião em 14 de abril.
Durante a oitiva, o presidente do conselho apresentou um e-mail enviado ao órgão solicitando que o tema fosse incluído na pauta daquela reunião, dois dias antes da assinatura do contrato. Segundo ele, a mensagem foi encaminhada apenas duas horas antes da reunião.
“O Conselho foi iludido. Porque o que foi apresentado ao conselho foi absolutamente de encontro às necessidades que historicamente são de conhecimento do conselho. [...] No plano de trabalho, consta que os pagamentos seriam feitos mediante a realização do serviço. Em momento algum se falou de dispensa de licitação”, afirmou Fernando Araújo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/6/9/1jlVVJT26H50fzhCgnAQ/cei-casabranca2.jpeg)
Fernando Araújo, presidente do Conselho de Saúde de Rio Preto (SP), presta depoimento a vereadores membros da CEI que apura suspeitas de irregularidades em convênio da Prefeitura com a Santa Casa de Casa Branca — Foto: TV TEM/Reprodução
Segundo o presidente da CEI, vereador Renato Pupo (Avante), o depoimento trouxe novos elementos para as investigações, entre eles a presença de uma representante da Santa Casa de Casa Branca na reunião em que o conselho aprovou o convênio.
“Na reunião de 14 de abril, existia uma pessoa da Santa Casa de Casa Branca presente na reunião. O secretário impediu que ela falasse. Se pudesse ter falado, acredito que os conselheiros talvez tivessem barrado ali a assinatura do convênio”, disse o parlamentar, à TV TEM.
A administração do prefeito Fábio Cândido chegou a pagar antecipadamente R$ 4,7 milhões pelo convênio, que depois foi cancelado, e agora cobra do hospital a devolução do valor.
O prazo para a devolução venceu nesta quarta-feira (20). Conforme a própria prefeitura, até agora Rio Preto conseguiu de volta R$ 950 mil.
Durante uma sessão na Câmara de Vereadores de Casa Branca, nesta terça (19), o provedor da Santa Casa daquela cidade, Willian Vieira Lemes, afirmou que o hospital não pretende abrir mão do convênio. Ele ainda afirmou que as contas da unidade hospitalar estão em dia, negando acusações de que haja problemas financeiros.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/K/x/L87uEzSwiQTdcPMNM35Q/cei-casabranca3.jpeg)
O promotor Sérgio Clementino, de Rio Preto (SP), vê indícios fortes de irregularidades no convênio para mutirão de exames entre a Prefeitura e a Santa Casa de Casa Branca (SP) — Foto: TV TEM/Reprodução
MP vê indícios de irregularidades
Para o Ministério Público, a devolução parcial dos recursos pode indicar irregularidades no convênio.
“Há uma série de indícios fortes de irregularidades, a começar pelo fato de ter sido contratada uma Santa Casa pequena, de uma cidade pequena, distante de Rio Preto”, afirmou o promotor de Justiça Sérgio Clementino, na semana passada.
O promotor também destacou que o pagamento antecipado sem a prestação do serviço contraria a regra adotada na administração pública.
Frentes de investigação
O caso é investigado pelo Ministério Público Federal (MPF), Ministério Público de Rio Preto, Tribunal de Contas do Estado (TCE) e pela própria CEI da Câmara.
O MPF instaurou inquérito civil e recomendou a suspensão imediata de qualquer gasto relacionado ao convênio. Segundo o órgão, há indícios de fragilidade fiscal, ausência de capacidade técnica e operacional da entidade para executar os serviços previstos e possível intermediação irregular de empresas.
A CEI tem prazo inicial de 120 dias, prorrogáveis, para concluir os trabalhos. A comissão é presidida por Renato Pupo (Avante), tem Abner Tofanelli (PSB) como relator, Bruno Moura (PL) como membro titular e João Paulo Rillo (PT) como suplente.
Em meio à crise, o então secretário municipal de Saúde, Rubem Bottas, pediu afastamento do cargo. Frederico Duarte assumiu a pasta e será responsável pela sindicância interna aberta para apurar o caso.
